Ter filhos

Antes de ter filhos eu tinha medo de ter filhos.
Até determinada altura na minha vida eu sentia que ter filhos podia mudar a vida para pior.

Também tive momentos em que me sentia triste por imaginar uma vida sem filhos.

Se eu tivesse filhos isso me transformaria num pai e sempre achei desde criança, que os pais não eram fixes.
Eles eram aborrecidos, responsáveis e nunca se divertiam.

Não fico surpreendido que as crianças pensem isso dos adultos.
E para ser sincero, durante a transição de criança para adulto não vi nada que me fizesse mudar essa ideia.
Sempre que notava pais com os seus filhos pareciam estar a viver um pesadelo. Os pais pareciam criaturas atormentadas que iam prevalecendo.

Quando as pessoas tinham bebés eu felicitava-as com entusiasmo, não porque realmente sentia, mas porque era estranho se não o fizesse. Mas interiormente pensava "Antes tu que eu".

Hoje quando as pessoas têm bebés felicito-os com entusiasmo e sinceridade. Especialmente quando é o primeiro. E interiormente penso "Recebeste o melhor presente do mundo".

O que me fez mudar? Tive um filho.
Algo que temia acabou por ser maravilhoso.

Em parte não posso negar que isto deve-se a sérias mudanças químicas que aconteceram quase instantaneamente quando o nosso primeiro filho nasceu.
Foi como se alguém tivesse ligado um botão na minha cabeça e de repente senti-me protector não apenas do nosso filho mas em relação a todas as crianças.

Lembro-me que quando conduzia do hospital aproximei-me de uma passadeira cheia de pessoas a atravessar a estrada e pensei "Tenho que ter cuidado com estas pessoas. Cada uma delas é filha de alguém."

Podem confiar em mim quando digo que ter filhos é ótimo.
Pareço um líder religioso de um culto a dizer que também será feliz ao se juntar ao culto. Irá alterar a sua mente de tal maneira que o fará feliz por ser membro. Mas não é nada disto que quero que pense.

Houve muitas coisas sobre ter filhos que eu claramente entendi errado antes de tê-los.
Nos momentos em que notei pais com filhos antes de ter filhos foram sempre momentos em que algo estava errado. Notei porque estavam a chorar e a fazer barulho.
E onde estava quando os notei? Normalmente em lugares públicos como aviões ou supermercados. O que não é exactamente uma boa amostra representativa do que é ser pai. Voar com crianças é algo que poucos pais gostam.

O que nunca tive oportunidade de observar quando não era pai foram momentos calmos que os pais têm com os seus filhos.
As pessoas não falam sobre esses momentos, até porque são difíceis de se expressar em palavras e todos os pais sabem do que estou a falar.
Aquele sentimento que os pais sentem tantas vezes de que não há outro lugar onde preferíamos estar ou nada que gostávamos mais de fazer do que estar com os nossos filhos. Não é preciso fazer nada de especial. Basta apenas estarmos com eles, deita-los na cama, empurra-los no baloiço no parque. E você não trocaria esses momentos por nada.
Ter filhos é encontrar momentos de paz a toda a hora. Não vale a pena procurar mais por ela, ela está onde estão os seus filhos.

Antes de ser pai eu tive momentos de paz, mas eram raros. Hoje com o meu filho acontece várias vezes por dia.

A minha outra amostra sobre a relação entre pais e filhos foi durante a minha infância. Eu fui uma criança muito problemática. Estava sempre a tramar alguma coisa. Então fiquei com aquela ideia gravada que a paternidade não era fácil.

Lembro-me da minha mãe me dizer que ela realmente gostava de nos ter tido, a mim e as minhas irmãs. E quando ela dizia isso eu pensava "Meu deus, esta mulher é uma santa." Ela suportou toda a dor que a sujeitámos e mesmo assim gostou da experiência. Hoje em dia já sendo pai entendo perfeitamente que ela só estava a ser sincera.

Uma das coisas que realmente me surpreendeu quando fui pai foi descobrir que não se trata apenas de amor. Os filhos são também os nossos melhores amigos. Eles são realmente interessantes. Apesar de serem repetitivos (conseguem repetir a mesmo coisa 50 vezes. É muito divertido brincar com eles.

É claro que há momentos que são um desastre, ou pior, um terror. Ser pai é intenso tanto no bom como no mau sentido. Ter filhos é uma daquelas experiencias que você só consegue imaginar depois de passar por ela.

Algumas das minhas preocupações sobre ser pai estavam certas. Definitivamente você baixa a sua produtividade. Você passa a ter que trabalhar com 2 horários.
O seu e o dos seus filhos. As crianças têm o seu horário.
Essa é a única forma que você tem de integrar a sua vida com a vida deles.

No trabalho, você vai trabalhar por blocos. Já não vai poder deixar o trabalho ocupar promiscuamente a sua vida como antigamente quando não tinha filhos.
Terá que trabalhar no mesmo horário todos os dias, caso esteja inspirado ou não, e vão existir momentos que você vai ter que parar, mesmo que sejam os momentos mais produtivos do dia.

Consegui adaptar-me a trabalhar desta forma. O trabalho, como o amor, encontra sempre um caminho. Se há apenas certos momentos em que pode acontecer, acontece nesses momentos.
Embora já não consiga fazer tanto como fazia antes, vou fazendo o suficiente.

Detesto dizer isto, porque ser ambicioso faz parte da minha identidade, mas ser pai tornou-me menos ambicioso. Dói ver esta frase escrita. Contorço-me cada vez que penso nisso. Se não fosse real não me contorceria.

A realidade é que você ao ter filhos irá preocupar-se mais com eles do que consigo.

Embora a experiência de ser pai possa estar a distorcer o meu julgamento actual, eu não perdi a memória. Lembro-me perfeitamente bem como era a minha vida sem filhos.
Bem o suficiente para ter saudades de várias coisas, como a possibilidade de marcar uma viagem a qualquer momento sem ter que planear muito.

A maioria da liberdade que tinha quando não era pai, não era utilizada. Muitas das vezes ficava em casa sozinho sem fazer nada em vez de aproveitar.

Tive momentos muito felizes antes de ter filhos, mas não trocava os momentos que tenho hoje com o meu filho por nenhum deles.

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